Gestão, custos e lucro
Como precificar prato de restaurante sem chutar
O preço do seu prato mais vendido saiu de onde? Se a resposta for "olhei o concorrente e arredondei", existe uma boa chance de você estar vendendo bastante e sobrando pouco.
Resposta rápida: para precificar um prato você precisa de dois números: o custo real da porção, tirado da ficha técnica já com perdas incluídas, e a soma dos percentuais que saem de cada venda — despesa fixa rateada, imposto do seu regime, taxa de pagamento, comissão de canal e o lucro desejado. O preço sai pelo markup divisor: custo da porção dividido por (1 menos essa soma em decimal). Só depois você compara com o mercado.
Preço de prato é a decisão que mais mexe no seu lucro e a que costuma receber menos tempo de análise. Compra de insumo, escala de equipe e negociação de aluguel entram em reunião. O preço do cardápio muitas vezes nasce de uma olhada no vizinho, de um número redondo que "parece justo" e de um reajuste anual feito por cima.
O problema é que preço errado não aparece no dia. Ele aparece no fim do mês, quando o faturamento subiu, a cozinha trabalhou mais e o caixa não acompanhou. Este artigo mostra o método completo: do custo real da porção até o preço final, com preço por canal e uma rotina de revisão que cabe na sua semana.
Custo, preço e margem são três coisas diferentes
Antes da conta, três definições que evitam a maior parte dos erros:
- Custo da porção (CMV do prato). O que sai do estoque para montar aquele prato: insumo, tempero, guarnição, embalagem quando for delivery.
- Margem de contribuição. Preço de venda menos os custos variáveis daquele prato. É o que sobra para pagar as despesas fixas e o lucro.
- Markup. O fator que transforma custo em preço. Não é lucro: dentro dele estão despesa fixa, imposto, taxa de canal e, por último, o seu ganho.
Confundir markup com lucro é o erro clássico. Quem acha que "multipliquei por 3, então ganho 200%" esquece que aluguel, folha, energia, imposto e maquininha ainda não foram pagos.
Passo 1: descubra o custo real da porção
Não existe precificação honesta sem ficha técnica. Ficha técnica é a receita escrita em gramas e mililitros, com rendimento declarado, feita para o prato sair igual em qualquer cozinheiro. Ela é a base do custo, e o custo é a base do preço.
Fator de correção: o custo que você paga e o que você usa
Você compra bruto e serve limpo. Cebola descascada, carne aparada, alface com folha ruim, camarão sem casca: parte do que entra pela porta nunca vai ao prato. Se você usa o preço de compra direto na ficha, o custo real fica subestimado.
Como achar o custo por quilo utilizável: pese o insumo bruto, limpe, pese o aproveitado. O fator de correção é peso bruto ÷ peso limpo. Multiplique o preço pago por quilo por esse fator e você tem o custo real do que vai ao prato. Faça isso uma vez por insumo crítico e refaça quando trocar de fornecedor.
Os custos que quase sempre ficam de fora
- Perda de cocção. Carne perde peso na chapa. A porção servida sai de um peso cru maior.
- Guarnição e acompanhamento. Farofa, molho, pão, palito, sachê. Individualmente é centavo; no volume do mês, não é.
- Embalagem de delivery. Marmita, tampa, sacola, lacre, adesivo. Esse custo existe no pedido de entrega e não existe no salão.
- Cortesia e refeição da equipe. Se sai do estoque, precisa aparecer em algum lugar do cálculo.
- Quebra e vencimento. O insumo que estragou foi pago. Ele encarece as porções que você conseguiu vender.
Se você ainda não tem o custo de mercadoria do restaurante sob controle, comece por como calcular o CMV do restaurante e o que fazer com o número antes de mexer em preço. Precificar com custo errado só troca um chute por outro chute mais bem formatado.
Passo 2: liste os percentuais que saem de cada venda
Do valor que o cliente paga, uma parte nunca foi sua. Levante cada linha com os seus próprios números, usando os últimos meses fechados:
| Linha | De onde vem o seu número | Exemplo ilustrativo |
|---|---|---|
| Despesa fixa rateada | Total de despesas fixas do mês ÷ faturamento do mês | 22% |
| Imposto sobre a receita | Carga efetiva informada pelo seu contador, conforme regime, estado e município | varia — pegue o seu |
| Meio de pagamento | Taxa média da maquininha e do pagamento online no seu extrato | do seu extrato |
| Comissão de canal | Total retido pelo marketplace ÷ faturamento daquele canal | do seu repasse |
| Lucro desejado | Decisão sua, olhando o seu investimento e o seu risco | 10% |
| Soma dos percentuais | É o que sai do preço antes de sobrar algo | 40% no exemplo |
Repare no que a tabela não faz: ela não afirma qual é o seu imposto. Alíquota, regime e enquadramento variam por estado, por município e pela composição do seu faturamento — quem fecha esse número é o seu contador, com confirmação na Receita Federal e na Sefaz do seu estado. Os 40% do exemplo são apenas para a conta do próximo passo fechar; o seu total vai ser outro.
Passo 3: aplique o markup divisor
Com custo da porção e soma dos percentuais na mão, o preço sai de uma divisão. O markup divisor é melhor que multiplicar por um fator inventado porque ele garante que os percentuais saiam do preço, e não do custo.
Fórmula: preço de venda = custo da porção ÷ (1 − soma dos percentuais em
decimal).
Exemplo ilustrativo: custo da porção R$ 12,00 e soma dos percentuais 40% (0,40).
Preço = 12 ÷ (1 − 0,40) = 12 ÷ 0,60 = R$ 20,00.
Compare com o atalho: multiplicar R$ 12,00 por 3 daria R$ 36,00, e por 2 daria R$ 24,00. Nenhum dos dois conversa com a sua estrutura de custo. O markup divisor conversa, porque foi construído com os seus percentuais.
Faça a conta prato por prato. Item com insumo caro e preparo rápido se comporta diferente de item barato que ocupa a cozinha por 40 minutos. Se a mão de obra do preparo for muito desigual entre os pratos, considere separar o rateio da despesa fixa por tempo de produção em vez de aplicar o mesmo percentual para tudo.
Seu custo por prato muda toda semana e o cardápio continua com o preço do ano passado?
No Xefo a ficha técnica puxa o custo do insumo da própria entrada de nota, e o preço corrigido vai
para o cardápio digital, o PDV e o delivery de uma vez — sem planilha paralela e sem comissão por pedido.
Passo 4: confronte o preço calculado com o mercado
A conta te dá o preço que a sua operação exige. O mercado dá o preço que o cliente aceita. Quando os dois batem, publique. Quando não batem, você tem três saídas, nesta ordem:
- Mexer no custo. Renegociar insumo, ajustar porção para um tamanho honesto, trocar corte, reduzir desperdício, revisar guarnição.
- Mexer na percepção. Foto melhor, descrição que explica o valor, combo que aumenta o ticket sem parecer aumento de preço.
- Mexer no cardápio. Se o prato só fecha a conta com preço que ninguém paga, ele não é um prato — é um problema estruturado.
Uma advertência importante: nunca copie o preço do vizinho. Você não conhece o custo dele, o aluguel dele, o regime tributário dele nem se ele está lucrando. Preço de concorrente é referência de percepção, não de viabilidade.
Passo 5: preço por canal, porque o custo é diferente em cada um
Um prato vendido no balcão, no delivery próprio e no marketplace tem o mesmo custo de insumo e percentuais bem diferentes. No balcão não há embalagem nem entrega. No delivery próprio entram embalagem, entregador e taxa de pagamento online. No marketplace entra a comissão do canal, que sai do mesmo preço.
A mecânica é a mesma do passo 3, trocando a soma dos percentuais por canal. Para levantar o custo real do canal marketplace, use o total retido no seu extrato de repasse dividido pelos pedidos do período — o caminho completo está em quanto custa vender no iFood, com a conta linha por linha. E se você cobra entrega, a taxa também precisa de método próprio, como em como precificar a taxa de entrega sem ter prejuízo.
Regra prática: se o mesmo preço vale em todos os canais, o canal mais caro está sendo pago pela margem do canal mais barato. Isso pode ser uma escolha consciente de aquisição de cliente — mas precisa ser escolha, não descuido.
Olhe a margem em reais, não só em percentual
Percentual de margem esconde volume. Um prato com margem percentual menor pode deixar mais dinheiro no caixa se vender muito mais. O número que paga a conta no fim do mês é margem de contribuição em reais multiplicada pela quantidade vendida.
Por isso, depois de precificar, cruze margem com popularidade e decida o que ganha destaque no cardápio. É exatamente o exercício de engenharia de menu para destacar os pratos mais lucrativos: item que dá margem e vende bem merece foto e posição no topo; item que dá margem e vende pouco precisa de empurrão; item popular de margem apertada precisa de revisão de custo ou de preço.
Sete erros que derrubam a margem no cardápio
- Preço redondo escolhido antes da conta. Arredonde depois de calcular, nunca no lugar de calcular.
- Porção sem padrão. Se cada cozinheiro serve uma quantidade, o custo real é desconhecido.
- Adicional cobrado abaixo do custo. Queijo extra, bacon, molho especial: adicional é onde a margem vaza sem ninguém ver.
- Custo congelado. Insumo subiu três vezes no ano e a ficha técnica continua com o preço da primeira compra.
- Combo montado por instinto. Desconto de combo tem que sair da margem, com a conta feita.
- Embalagem fora da conta. No delivery ela é insumo, não despesa administrativa.
- Reajuste único e grande. Um salto anual chama mais atenção do cliente que ajustes pequenos ao longo do ano.
Rotina de revisão de preço
- Toda entrada de nota: registre o preço pago do insumo. Sem isso, nada mais funciona.
- Todo mês: recalcule a despesa fixa rateada e confira se a soma dos percentuais mudou.
- Todo mês: liste os cinco insumos que mais subiram e veja quais pratos eles afetam.
- Todo trimestre: refaça o fator de correção dos insumos críticos e revise as fichas técnicas.
- Todo trimestre: reveja a margem em reais por prato e ajuste o destaque no cardápio.
- Sempre que trocar de canal, plano ou maquininha: recalcule o preço daquele canal.
Nada disso exige software para começar — exige disciplina. Mas fazer à mão tem um limite claro: em um cardápio com dezenas de itens, o custo envelhece mais rápido do que você consegue atualizar planilha. Quando o custo do insumo, a ficha técnica e o preço do cardápio moram no mesmo lugar, o preço se mantém vivo sozinho e você volta a discutir o que importa: qual prato merece estar no cardápio.
Quer ver a sua margem por prato sem montar planilha?
Em uma demonstração a gente monta a conta com os seus números e mostra ficha técnica, custo por
porção e margem por canal na tela. São +12 anos de mercado, suporte humano em português todos os
dias e nenhum contrato de fidelidade.
Perguntas frequentes
Posso simplesmente multiplicar o custo do prato por 3?
Multiplicar por um número fixo é um atalho que funciona por acidente. Ele ignora que cada prato tem custo de insumo, tempo de cozinha e canal de venda diferentes. Use o multiplicador só como conferência rápida depois de calcular pelo markup divisor: se o preço calculado ficar muito longe do "custo vezes três", vale entender por quê antes de publicar.
Que percentual de imposto eu coloco na conta do preço?
Isso depende do seu regime tributário, do seu estado e do seu município, e muda conforme a composição do faturamento. Não existe percentual único para restaurante. Peça ao seu contador a carga efetiva sobre a receita dos últimos meses fechados e use esse número. Confirme também na Receita Federal e na Sefaz do seu estado o que se aplica ao seu caso.
Preciso ter preço diferente no aplicativo e no meu delivery?
Faz sentido quando os custos do canal são diferentes, e eles quase sempre são. A comissão do marketplace sai do mesmo preço que paga o insumo e a cozinha. O caminho é calcular o preço por canal e decidir onde absorver e onde repassar. Cuidado com diferença grande demais: ela derruba a conversão dentro do aplicativo e ensina o cliente a te achar caro.
Como eu reajusto preço sem perder cliente?
Reajuste por prato, não no cardápio inteiro de uma vez. Comece pelos itens de margem mais apertada e pelos que o cliente não usa como referência de preço. Ajuste em passos pequenos e frequentes em vez de um salto anual grande. Aproveite mudanças de cardápio, foto nova ou combo novo para reposicionar o item sem o cliente sentir apenas o número subindo.
Dá para controlar isso sem planilha paralela?
Dá, e é o que evita o preço envelhecer. Com ficha técnica e custo de insumo dentro do sistema, o custo da porção se atualiza junto da entrada de nota, e o cardápio pode ser corrigido em um lugar só. No Xefo, estoque, cardápio digital e canais de venda ficam na mesma base, sem comissão nem taxa por pedido e sem contrato de fidelidade.
Quer parar de entregar parte de cada pedido para o aplicativo?
O Xefo reúne cardápio digital, PDV, WhatsApp e delivery próprio em um sistema só —
sem comissão por pedido e sem fidelidade.