Gestão, custos e lucro
Ponto de equilíbrio: quanto o restaurante precisa vender por mês
Todo dono deveria saber de cor quanto precisa vender no mês só para empatar. Abaixo desse número, cada dia aberto aumenta o prejuízo; acima dele, começa o lucro.
Resposta rápida: o ponto de equilíbrio é o faturamento mensal em que o restaurante não tem lucro nem prejuízo. A fórmula é ponto de equilíbrio = despesas fixas do mês ÷ margem de contribuição %, em que a margem de contribuição é o que sobra de cada venda depois do CMV, das taxas, da comissão de canal, da embalagem e dos impostos sobre a venda. Divida o resultado pelos dias abertos para ter a meta diária.
Muitos restaurantes descobrem que estão no prejuízo só quando o dinheiro acaba. O ponto de equilíbrio antecipa essa descoberta: ele mostra, no começo do mês, quanto você precisa vender até o último dia para pagar tudo, e permite acompanhar dia a dia se está no caminho.
A conta tem só uma divisão. O trabalho está em levantar os números certos, e é isso que este guia mostra, com um exemplo completo.
A fórmula
Margem de contribuição % = (faturamento − custos variáveis) ÷ faturamento
Ponto de equilíbrio = despesas fixas do mês ÷ margem de contribuição %
É a mesma lógica que o Sebrae usa nos materiais para pequenas empresas: dividir as despesas fixas pela margem de contribuição (Comunidade Sebrae PR, artigo de 04/07/2021). O que muda no restaurante é a lista do que entra em cada lado.
Separe os custos fixos dos variáveis
A pergunta que decide é: esse custo aumenta quando eu vendo mais um prato? Se sim, é variável. Se ele existe mesmo com o salão vazio, é fixo.
| Custos variáveis (sobem com a venda) | Despesas fixas (existem mesmo sem venda) |
|---|---|
| Insumos (CMV) | Aluguel e condomínio |
| Taxas de cartão e de pagamento online | Salários e encargos da equipe fixa |
| Comissão e taxas dos aplicativos | Pró-labore do dono |
| Embalagens do delivery | Contador, sistema, internet, seguros |
| Impostos calculados sobre a venda | Parcela de empréstimo e de equipamento |
| Entrega paga por pedido | Base de energia, gás e água |
Energia e gás têm uma parte fixa e uma parte que sobe com o movimento. Para simplificar, muitas casas tratam como fixo e revisam no fim do trimestre. Freelancer contratado só para o pico pode ser tratado como variável. O importante é escolher um critério e manter todo mês.
O imposto sobre a venda depende do regime e do estado. Não use percentual de artigo: peça a carga efetiva ao seu contador. Se a sua empresa está no Simples Nacional, vale ler também o que muda no Simples com a reforma tributária.
Exemplo completo com números redondos
Todos os valores abaixo são fictícios, escolhidos para a conta fechar fácil. Nenhum deles é referência de mercado.
1. Despesas fixas do mês
| Folha e encargos | R$ 30.000 |
|---|---|
| Aluguel e condomínio | R$ 12.000 |
| Pró-labore | R$ 8.000 |
| Energia, gás, água, internet | R$ 6.000 |
| Contador, sistema, manutenção | R$ 4.000 |
| Total de despesas fixas | R$ 60.000 |
2. Custos variáveis, em % do faturamento
| CMV | 32% |
|---|---|
| Impostos sobre a venda (exemplo; o seu vem do contador) | 6% |
| Taxas de pagamento e comissões de canal (média da casa) | 5% |
| Embalagens e outros variáveis | 2% |
| Total de custos variáveis | 45% |
| Margem de contribuição (100% − 45%) | 55% |
3. A conta
- Ponto de equilíbrio mensal: R$ 60.000 ÷ 0,55 = R$ 109.091.
- Por dia: com 26 dias abertos, R$ 109.091 ÷ 26 = cerca de R$ 4.196 por dia.
- Em pedidos: com ticket médio de R$ 50, são cerca de 2.182 pedidos no mês, ou 84 por dia.
A leitura é direta: até vender R$ 109.091 no mês, o restaurante está pagando a estrutura. A partir daí, cada R$ 100 vendidos deixam R$ 55 de lucro antes do imposto de renda, porque as despesas fixas já foram cobertas.
4. Meta por dia da semana
A meta de R$ 4.196 por dia é uma média, e restaurante não vende igual todos os dias. Para a meta ser útil no turno, distribua o ponto de equilíbrio pelo peso de cada dia no seu histórico. Pegue as vendas das últimas oito semanas, some por dia da semana e calcule a fatia de cada um. Exemplo fictício, para uma semana de seis dias abertos:
| Dia | Peso no histórico | Meta semanal × peso |
|---|---|---|
| Terça a quinta (cada) | 12% | cerca de R$ 3.021 |
| Sexta | 19% | cerca de R$ 4.783 |
| Sábado | 25% | cerca de R$ 6.294 |
| Domingo | 20% | cerca de R$ 5.035 |
A meta semanal do exemplo é R$ 109.091 ÷ 26 dias × 6 dias, cerca de R$ 25.175. Com a meta por dia, a equipe sabe na hora se uma terça fraca precisa ser compensada no fim de semana, e você percebe cedo quando um dia forte deixou de ser forte.
Da meta de empate à meta de lucro
Empatar não é objetivo, é piso. Para saber quanto vender para ter o lucro que você quer, some o lucro desejado às despesas fixas antes de dividir:
Faturamento-alvo = (despesas fixas + lucro desejado) ÷ margem de contribuição %
No exemplo, para lucrar R$ 15.000: (R$ 60.000 + R$ 15.000) ÷ 0,55 = R$ 136.364 no mês.
Vale também calcular a margem de segurança: quanto o faturamento pode cair antes de você entrar no prejuízo. Se o restaurante do exemplo vende R$ 125.000, a margem de segurança é (R$ 125.000 − R$ 109.091) ÷ R$ 125.000 = cerca de 13%. Um mês de chuva, obra na rua ou férias escolares pode consumir isso.
Quer acompanhar a meta do dia sem esperar o fechamento do mês?
O App do Dono do Xefo mostra o faturamento do dia, os pedidos em andamento e o ticket médio em tempo
real, e o resumo do dia chega sozinho no seu WhatsApp e no e-mail.
O que mexe no seu ponto de equilíbrio
Use a fórmula ao contrário para testar decisões antes de tomá-las. Sempre com os números do exemplo:
| Mudança | Novo ponto de equilíbrio |
|---|---|
| Contratar mais uma pessoa (+R$ 3.300 de fixo) | R$ 63.300 ÷ 0,55 = R$ 115.091 |
| CMV sobe 3 pontos sem repasse (margem cai para 52%) | R$ 60.000 ÷ 0,52 = R$ 115.385 |
| Mais venda por canais caros (margem média cai para 50%) | R$ 60.000 ÷ 0,50 = R$ 120.000 |
| Revisão de preço e porção (margem sobe para 58%) | R$ 60.000 ÷ 0,58 = R$ 103.448 |
Repare que três pontos de margem de contribuição mexem no ponto de equilíbrio tanto quanto uma contratação. Por isso a primeira alavanca costuma ser o preço e o CMV: o método para formar preço está em como precificar prato de restaurante sem chutar, e o controle do insumo em como calcular o CMV.
Ponto de equilíbrio por canal
A margem de contribuição de 55% do exemplo é uma média. Na prática, o salão, o balcão, o delivery próprio e os aplicativos têm custos variáveis diferentes. Se a fatia de pedidos por aplicativo cresce, a média cai e o ponto de equilíbrio sobe, mesmo que nenhum preço tenha mudado.
Calcule a margem de contribuição de cada canal separadamente e veja quanto cada um ajuda a pagar a casa. O marketplace traz cliente novo e tem o seu papel; o importante é decidir com a conta na mão. O passo a passo do custo por pedido está em delivery próprio x marketplace: comparativo de custo por pedido.
Erros comuns no cálculo
- Deixar o pró-labore de fora. O empate fica bonito no papel e não paga o seu trabalho.
- Usar as compras do mês no lugar do CMV. Mês de estoque cheio parece ruim, o seguinte parece ótimo, e nenhum dos dois é verdade.
- Ignorar a sazonalidade. Calcule a meta diária também por dia da semana: se a segunda-feira vende um terço do sábado, a meta de cada dia não é igual.
- Esquecer as parcelas. Empréstimo e equipamento financiado saem do caixa todo mês e precisam entrar como despesa fixa enquanto durarem.
- Calcular uma vez e nunca mais. O número envelhece a cada reajuste de aluguel, dissídio ou aumento de insumo.
Rotina mínima
- Início do mês: atualize despesas fixas e margem de contribuição; defina a meta diária.
- Todo dia: compare o faturamento do dia com a meta e acompanhe o acumulado.
- Fim do mês: veja onde ficou em relação ao ponto de equilíbrio e à meta de lucro.
- A cada trimestre: revise a margem por canal e os preços do cardápio.
O ponto de equilíbrio fica ainda mais útil ao lado de outros números da semana, como CMV, custo de pessoal e ticket médio. Veja o painel completo em indicadores que todo dono de restaurante deveria olhar toda semana. E feche os números fiscais e tributários com o seu contador, que é a autoridade final sobre imposto e regime.
Perguntas frequentes
O ponto de equilíbrio muda todo mês?
Muda sempre que mudam as despesas fixas ou a margem de contribuição. Um reajuste de aluguel, um funcionário a mais, um aumento de insumo sem repasse no cardápio ou uma fatia maior de vendas pelo aplicativo alteram o número. Recalcule pelo menos a cada trimestre e sempre que houver uma mudança grande de custo.
Meu pró-labore entra nas despesas fixas?
Deve entrar. Se você trabalha no restaurante e deixa a sua retirada fora da conta, o ponto de equilíbrio parece mais baixo do que é, e você comemora um empate que, na verdade, não paga o seu trabalho. Coloque um pró-labore realista como despesa fixa e trate como lucro só o que vier depois dele.
Como calcular o ponto de equilíbrio em número de pratos ou pedidos?
Divida o ponto de equilíbrio em reais pelo seu ticket médio. Se o restaurante precisa faturar R$ 110.000 no mês e o ticket médio é R$ 50, são cerca de 2.200 pedidos no mês. Dividindo pelos dias abertos, você chega a uma meta de pedidos por dia que a equipe consegue acompanhar no turno.
O que fazer se o ponto de equilíbrio está acima do que eu vendo?
Existem três saídas, e normalmente é preciso combinar mais de uma: aumentar a margem de contribuição (preço, porção, mix de canais e de produtos), reduzir despesas fixas ou aumentar o volume de vendas. Comece pela margem, porque ela melhora o resultado de toda venda que você já faz, sem depender de cliente novo.
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